O Processo de definição e escolha do tema.
Conceitualmente a idéia de “encontro” ou “encontrar-se” tem como característica principal o compartilhamento de idéias, crenças, utopias e ideais, ou seja, significa mais que um mero agrupamento de pessoas em um mesmo espaço-tempo definido, com pouca ou nenhuma possibilidade de troca e crescimento. Neste caso, pode-se dizer que, felizmente, o primeiro encontro destinado à escolha de alguns temas para o Congresso Paulistano de Educação Física Escolar – CONPEFE de 2009 e que, posteriormente poderiam ser desmembrados em outros, teve como ponto nodal colocar a Educação Física Escolar como protagonista no contexto das discussões que envolvem o processo de escolarização básico. Vale mencionar que os membros que compuseram essa primeira tentativa de engendrar uma discussão na área e organizar o Congresso para meados de 2009 foram o Prof Dr. Daniel Carreira Filho, a Profa. Ms. Maria Antônia Fugeri, o Prof Ms. Roberto Rocha Costa e o Prof. Ms. Fabio Pinto Gonçalves dos Reis.
Quando foi proposta essa possibilidade entre esses professores da área de Pedagogia e Educação Física do Centro Universitário Módulo – MÓDULO, localizado na cidade de Caraguatatuba – SP, com a finalidade de fitar idéias em torno do recorte temático do Congresso, uma vez que o grande escopo temático já havia sido estabelecido desde a sua primeira iniciativa em 2005, surgiram inúmeros vieses interessantes a serem aprofundados.
Primeiramente, então, o professor Daniel abriu a reunião expondo de forma sucinta todo o percurso histórico, as necessidades, os debates desenvolvidos, além dos materiais produzidos nos Congressos anteriores, a fim de que os profissionais envolvidos com essa nova empreitada pudessem vislumbrar as dimensões, os objetivos e a responsabilidade de tratamento temático tão pertinente à área da Educação, em especial, da Educação Física Escolar. Decerto que naquele momento houve uma participação intensa dos outros participantes, pois foi percebida uma possibilidade real de interlocução tangenciada por um objetivo comum. Isto é, colocar em pauta de debate a Educação Física como componente curricular de importância no contexto da escola básica, além de seus entrepostos pedagógicos.
Percebeu-se, nessa direção, que este diálogo mais significativo poder-se-ia criar “corpo” na medida em que os anseios e ideais que permeiam o conceito de Educação Física Escolar, seu objeto de estudo, suas múltiplas metodologias e abordagens, seus processos avaliativos, a percepção de suas lacunas e contra-sensos, fossem plenamente socializados entre ambos.
Nesse sentido, algumas categorias interessantes foram surgindo ao longo das discussões e dos embates tais como a questão do compromisso do professor de Educação Física, a sua vontade política de transformar a prática, o processo formativo nas licenciaturas, a distância entre o (a) aluno (a) real e o (a) ideal, a pouca produção acadêmica significativa na área quando comparada com a perspectiva do Treinamento e da Fisiologia, dentre outras. Apesar do debate caloroso, ficou estabelecido como consenso o tema “Educação Física Escolar: quais competências para o cotidiano educacional?”.
Apesar desse direcionamento, surgiu a idéia de solicitar e envolver vários profissionais de projeção envolvidos com as discussões pedagógicas, sobremaneira, os que se debruçam em desvelar os entraves pertinentes ao interior do campo da Pedagogia e da Educação Física Escolar, objetivando confrontar a premissa inicial com novos olhares.
Para tanto, foram encaminhados cerca de trinta e-mails para professores de diferentes regiões do país que desenvolvem pesquisas na área e ministram aulas em universidades públicas e privadas. Dessa forma, resolveu-se enriquecer esse projeto integrando os relatos e pareceres dos professores solicitados que responderam aos e-mails encaminhados pelo grupo de organizadores.
O Prof Dr. Roberto Tadeu Iaochite da Universidade de Taubaté – UNITAU, localizada na cidade de Taubaté, interior de São Paulo, se dispôs a participar da comissão científica e pensar junto o próximo CONPEFE, “uma vez que tive uma excelente impressão sobre o evento no ano passado. Finalizei meu doutorado na FE Unicamp em novembro passado discutindo não a questão das competências, mas a importância de se construir junto aos professores, a crença de que são capazes de agir na direção das competências para o ensino da Educação Física na escola”. O professor comentou que está preparando uma palestra e um curso sobre atividades Gímnicas para o Ensino Médio nessa perspectiva teórico-prática e, se possível, gostaria de oferecê-lo no Congresso. Disse ainda que poderia auxiliar no processo de divulgação na universidade mencionada.O professor Eduardo Francisco Caparroz, preferiu atacar mais pontualmente o foco da discussão afirmando que o tema era interessante porque levava em consideração o cotidiano educacional, porém, “quanto á questão que circunscreve “quais competências” fiquei em dúvida, pois não fica claro para mim se as competências são dos professores, da instituição escolar, da Educação Física como componente curricular (em relação, por exemplo, ao que deve ser ensinado), ou ainda se são as competências que os alunos têm e/ou devam ter ou construir nas aulas de Educação Física Escolar. Se isso fosse esclarecido a temática seria então interessante”.
Posto isso, o professor Caparroz afirma ficar preocupado, uma vez que a discussão das competências, de certo modo, traz consigo a idéia de ser competente em termos de um determinado modo de agir (algo relacionado com a lógica da eficiência e eficácia).
Além disso, o professor também ressalta que, particularmente, prefere a idéia de “saberes”. Segundo ele, “porque para atuarmos no cotidiano como professores se fazem necessários uma gama imensa de saberes, que não são só os que aprendemos na universidade. E também, eu como professor não sou competente o tempo todo, mas minha incompetência diante de situações que podem surgir na dinâmica e complexa teia relacional que envolve a prática pedagógica demanda um saber, porque demanda uma deliberação imediata frente aquela situação (a qual posso estar sendo incompetente). Ou seja, muitas vezes eu decido por algo e depois avalio essa decisão como equivocada, isso é um modo de saber, o que eu preciso é transformar essa experiência num saber consciente/reflexivo e que possa ir sedimentando em mim uma sabedoria, um bom senso que me permite não atuar independente de manuais e de determinações feitas por outros, mas sim que vão garantindo minha autonomia, autoridade e autoria docente”.
Caparroz ainda sugere que no interior do Congresso possa ser organizado algo em relação ao trato didático-pedagógico da Educação Física como componente curricular. Ele destaca que este é um tema muito presente nas discussões que tem travado com os professores da universidade, com seus alunos da formação inicial e com vários professores que atuam na Educação Básica e que participam em programas de formação continuada.
Dando prosseguimento às contribuições, a professora Delcimar Cunha (educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP) exclama que o tema é extremamente relevante, mas contesta também (igualmente ao professor Caparroz) a idéia das “competências”, uma vez que considera o mentor intelectual da proposta, o conhecido professor Philippe Perrenoud, como "propagador de uma sociologia rasteira e barata!".
Em sentido contrário, o professor Rodolfo Siqueira (Náutico Mogiano) não apresentou nenhuma crítica a temática e se mostrou bastante interessado na possibilidade de levar os alunos a participarem do Congresso, porém, deu a entender que essa área de atuação não tem um futuro muito promissor.
O professor Ivan Arruda (coordenador do curso de Educação Física nas Faculdades de Pindamonhangaba - FAPI) deu um retorno positivo e afirmou que fará um esforço no sentido dos alunos apresentarem uma quantidade razoável de trabalhos com extrema qualidade. Também se prontificou auxiliar na divulgação.
A professora Clara (Pedagogia da Universidade de Mogi da Cruzes - UMC) ressaltou que no interior da temática seria interessante subsidiar as formas pelas quais o professor de Educação Física pode participar na construção do projeto político pedagógico da escola.
A professora Ana Reis da UNITAU enfatiza como pedagoga, que os profissionais da Educação Física necessitam de uma formação mais integrada as Ciências Humanas, pois percebe que a formação especializada na área acaba por isolar sua atuação na instituição escolar. Prontificou-se, ainda, em participar e envolver seus alunos.
A pesquisadora Renata Duarte Simões da Universidade do Espírito Santo, localizada no mesmo estado em questão, propõe como tema: Educação Física: discutindo competências no cotidiano educacional. Nesse sentido, nota-se que apesar de diversas contribuições o mote da proposta continua sendo as questões cotidianas na escola e os saberes envolvidos na prática da Educação Física.
De forma concomitante, o professor Paulo Cesar Montagner do curso de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP enfatizou a importância do evento ao dizer que o tema era relevante e pertinente, além de confirmar a sua participação e envolvimento dos alunos e alunas da Universidade.
Na mesma direção, o professor Leopoldo Hirama que fez seu mestrado na Faculdade de Educação Física da UNICAMP destacou a abrangência do tema e a necessidade de trazer à tona essa discussão.Já o Prof. Renato Sadi, propôs que déssemos uma ênfase maior no esporte de caráter educacional, mas também mostrou interesse em participar do Congresso.
O Prof. Wellington de Oliveira da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, ressaltou a pertinência de debate do tema devido ao momento sócio-histórico em que estamos vivendo, propondo também uma discussão curricular e de expectativas de aprendizagem. A sua sugestão pautou-se, principalmente, na possibilidade de substituição da pergunta inicial que estava no título Educação Física Escolar: quais competências para o cotidiano educacional? . Ele propôs a mudança para Educação Física Escolar: discutindo competências para formação no cotidiano educacional.
Embalsamados por esse embate conceitual, deu-se escuta também ao Prof. José Henrique da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ que, caucionado pelas contribuições de Irene Conceição Andrade Rangel, fez opção pelo tema Educação Física Escolar: competências profissionais para o cotidiano educacional.
Dentre todos os relatos de participação e envolvimento na construção de um plano de “consenso” ou “antagonismos”, têm-se ainda os pareceres positivos do Prof. Alcides José Scaglia e do Prof. Sérgio Buhrian no que concerne ao Congresso e suas dimensões conceptuais.
Diante dessas participações, diga-se de passagem, extremamente significativas para o amadurecimento da proposta, optou-se pela retirada do termo “competência” que fazia parte da proposição inicial e substituí-lo pelas propositivas teóricas e práticas imbricadas no conceito de “saberes”. Em contrapartida, vale registrar que as perspectivas iniciais que caminhavam no sentido de problematizar o campo da Educação Física Escolar e suas múltiplas dimensões inerentes ao cotidiano educacional ainda permaneceram no fechamento final da proposta, a saber:
EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR: SABERES DOCENTES E COTIDIANO EDUCACIONAL.